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Guião
Lisboa, 25 de Junho de 1958
20 Horas e 5 Minutos
Rádio Renascença


Personagens e Intérpretes por ordem de entrada

António Revez- Locutor em Lisboa
Álvaro de Lemos- 1º repórter em Lisboa
Artur Mourato- Professor Dr. Manuel Franco e 1º Soldado
Mariano Calado- Jacinto Simões
Matos Maia- Dr. César de Brito e 2º Telegrafista
Mário de Castro- Coronel Brás da Cunha
José Pinto- Dr. Pedro da Fonseca
Eduardo Carvalhais- Capitão Agostinho Nunes e 1º Telegrafista
Augusto Xavier- Locutor da BCC
Gomes de Almeida- Secretário das Relações Interiores
Daniel Gonçalves- Locutor no Porto
Óscar Ramos- Repórter no Porto
Joaquim Pedro- Tenente de artilharia e 2º repórter em Lisboa
Coelho da Silva- 2º Soldado
Carlos Pinto- Tenente, comandante da esquadrilha
Armando Baetas- Desconhecido


António Revez: Transmite Rádio Renascença, Emissora Católica Portuguesa, trabalhando com as suas estações de onda média e curta, de Lisboa e Porto. Apresentamos agora Orquestras Ligeiras. Em primeiro lugar a orquestra de Helmut Zacharias, na composição China boogie.

Disco-China Boogie (interrompido, bruscamente, a pouco mais de meio)

António Revez: Senhoras e senhores, interrompemos o nosso programa de Orquestras Ligeiras para transmitirmos uma notícia especial da Agência Internacional Press. Às 19 horas e 45, o Dr. Jorge da Fonseca do Observatório Meteorológico de Braga, diz ter observado várias explosões de gás incandescente que ocorreram, com intervalos regulares, no planeta Marte. O espectroscópio indica que o gás é hidrogénio e se move em direcção à Terra com tremenda velocidade. O professor Dr. Manuel Franco, do Observatório Astronómico de Cascais, confirma a observação do Dr. Jorge da Fonseca, e descreve o fenómeno como "um jacto de chama azul disparado por uma arma". (Pausa)
Em continuação da nossa rubrica com Orquestras Ligeiras, apresentamos a orquestra de Dick Jacobs em Peticots of Portugal.

Disco - Peticots of Portugal.

António Revez: E agora um trecho que nunca perde a popularidade: Oh main papa!. Toca a orquestra de Harry James.

Disco - Oh Main Papa!

António Revez: Senhoras e senhores, depois da notícia que demos no nosso boletim de há momentos, o Observatório Astronómico de Cascais pediu aos grandes Observatórios do País que se mantivessem em observação astronómica sobre as perturbações do planeta Marte. Devido à natureza invulgar do acontecimento, conseguimos uma entrevista com o notável astrónomo professor Dr. Manuel Franco, que nos dará a sua opinião sobre o caso. Dentro de momentos ligaremos para o Observatório de Cascais. Entretanto continuamos a transmitir a nossa rubrica de orquestras ligeiras.

Disco (cortado, bruscamente, a pouco mais de meio)

António Revez: Estamos prontos a ligar para o Observatório de Cascais onde o nosso repórter Álvaro de Lemos entrevistará o professor Franco, director daquele Observatório. Atenção a Cascais.

Pequena "branca" - Sala com eco - Ouve-se em fundo um tic-tac contínuo durante toda a entrevista

Álvaro de Lemos: Boa noite, caros ouvintes. Fala-vos Álvaro de Lemos, que se encontra no Observatório Astronómico de Cascais. Estou numa enorme sala semicircular muitíssimo escura e apenas com uma fenda comprida no tecto.
Por essa abertura vejo uma poeira de estrelas que projecta uma espécie de brilho frio sobre o mecanismo intrincado do imenso telescópio. O tic-tac que ouvem é a vibração do mecanismo do aparelho. O professor Franco está instalado numa pequena plataforma a olhar pela luneta gigante. Tenho de pedir paciência a todos os ouvintes por alguns atrasos que possam surgir durante a entrevista. Além de examinar o céu, o professor Franco pode ser interrompido a todo o momento a todo o momento pelo telefone ou por outras comunicações. Durante este período encontra-se em contacto constante com os centros astronómicos do mundo. Senhor professor, podemos começar?

Artur Mourato: Quando quiser

Álvaro de Lemos: Senhor professor: quer fazer o favor de dizer aos nossos ouvintes o que é que vê, exactamente, quando observa o planeta Marte com o seu telescópio?

Artur Mourato: De momento nada de extraordinário.
Um disco vermelho a nadar num mar azul. Riscas a atravessar o disco. Agora bastante distintas, porque Marte se encontra num ponto perto da Terra.

Álvaro de Lemos: Na sua opinião, senhor professor, o que são essas riscas do planeta?

Artur Mourato: Posso assegurar-lhe que não são canais, embora seja esta a convicção popular dos que julgam Marte habitado. Do ponto de vista científico, as riscas são simples resultado de condições atmosféricas especiais do planeta.

Álvaro de Lemos: Então está inteiramente convencido, como cientista, de que a vida inteligente, como nós a conhecemos, não existe em Marte?

Artur Mourato: Diria que a probabilidade é de mil contra um.

Álvaro de Lemos: Então como explica essas erupções gasosas que agora têm ocorrido na superfície do planeta com intervalos regulares?

Artur Mourato: Não as explico. Pelo menos por enquanto...

Álvaro de Lemos: Já agora, senhor professor, para elucidar os nossos ouvintes: a que distância está Marte da Terra?

Artur Mourato: Aproximadamente a 75 milhões de quilómetros.

Álvaro de Lemos: Bom, já é uma distância considerável...
Um momento, senhores ouvintes. Acabam de entregar ao professor Dr. Manuel Franco, um papel. Enquanto ele o lê, recordo que lhes falo do Observatório Astronómico de Cascais, onde estamos a entrevistar o célebre astrónomo professor Dr. Manuel Franco. Um momento, por favor! O professor Franco passou-me o papel que acaba de receber. Posso lê-lo aos ouvintes?

Artur Mourato: Com certeza, senhor Álvaro de Lemos.

Álvaro de Lemos: Senhoras e senhores, vou ler-lhes um telegrama endereçado ao senhor professor Dr. Manuel Franco pelo Dr. César de Brito, da Central Meteorológica de Lisboa: "20:45 horas TMG, Sismógrafo registou choque de intensidade, quase de terramoto, dentro dum raio de 20 quilómetros, com epicentro em Lisboa. Favor investigar." (Pausa) Senhor professor, este acontecimento terá qualquer relação com as perturbações observadas no planeta Marte?

Artur Mourato: Não é natural. Trata-se, provavelmente de algum meteoro de tamanho invulgar, cuja queda, nesta altura não passa duma coincidência. No entanto, procederemos a pesquisas logo que a luz do dia o permitia.

Álvaro de Lemos: Muito obrigado, senhor professor!
Caros ouvintes, temos estado a falar-lhes do Observatório Astronómico de Cascais, transmitindo uma entrevista especial com o professor Dr. Manuel Franco, conhecido astrónomo e director deste importante Observatório. Vamos ligar para os estúdios em Lisboa. Atenção estúdios!

Pequena "branca" - Gong

Álvaro de Lemos: Estúdios em Lisboa da Rádio Renascença. Senhoras e senhores ouvintes, eis o último boletim da Agência Internacional Press: "O Professor António Luiz Marañon, chefe do serviço meteorológico da Universidade Técnica de Madrid, anunciou que observou três explosões no planeta Marte, entre as 16h20 e as 20.30 horas, tempo médio de Greenwich". Isto confirma os relatórios anteriores recebidos dos Observatórios nacionais. (Pausa) Agora uma notícia especial, fornecida, telefonicamente, pelo Observatório Meteorológico de Cascais. "ÀS 21.15 horas, um objecto enorme e em chamas, que se julga ser um meteoro, caiu numa quintq nas vizinhanças de Carcavelos, a cerca de 18 quilómetros de Lisboa. O clarão no céu foi visto numa extensão de vários quilómetros e o barulho do choque foi ouvido em Cascais". (Pausa) Enviámos uma equipa a Carcavelos e o nosso repórter Álvaro de Lemos, que também seguiu para o local do embate com o professor Manuel Franco, do Observatório de Cascais, dar-vos-á uma descrição, directa, assim que lá chegar.

Separador

António Revez: Atenção, estimados ouvintes! Já pedimos uma linha telefónica para Carcavelos, para onde estamos tentando ligar e onde, dentro de minutos, deve chegar o nosso repórter Álvaro de Lemos. (Pausa) Entretanto vamos ler-vos uma notícia acabada de chegar: "O astrónomo francês professor René Rolland, secretário do Centro de Estudos Astronómicos de Marselha que ontem chegou a Lisboa, ao ter conhecimento dos fenómenos ocorridos em Marte e Registados nos nossos Observatórios, deu uma entrevista à imprensa, declarando que, no passado dia 23, foram registadas diversas pequenas explosões de gás no planeta Marte, pelo Centro Astronómico de Marselha. Essas explosões seriam na sua opinião, devidas provavelmente, a um aumento de temperatura naquele planeta. As Observações feitas pelo Centro de Estudos de Marselha foram pelo confirmadas pelo Observatório de Paris.

Disco (piano - 30 segundos)

António Revez: Atenção, estimados ouvintes: vamos ligar para Carcavelos. Atenção a Carcavelos!

Ruídos de multidão - Sirenas de bombeiros - ruídos vários ao ar livre

Álvaro de Lemos: Senhoras e senhores, prezados ouvintes, Álvaro de Lemos, agora da Quinta das Conchas, em Carcavelos. O professor Franco e eu fizemos a distância de Cascais até aqui em 7 minutos. Bem eu, sinceramente, nem sei por onde principiar para vos descrever a estranha cena que tenho diante dos olhos, e que mais parece arrancada a um conto das Mil e Uma Noites!... Acabo de chegar e ainda nem tive tempo de olhar em volta... Parece-me que é aquilo! Lá está... a coisa, ali, diante de mim, meio enterrada num grande buraco. Deve ter batido com uma força tremenda! O chão coberto de bocados de madeira de uma árvore que se destruiu ao cair. O que eu posso ver do objecto não se parece com um meteoro ou, pelo menos com a descrição de meteoros que me tem sido feita. Parece mais um enorme cilindro. Tem um diâmetro de... quanto diria senhor professor?

Artur Mourato: (Afastado):Uns vinte e tal metros.

Álvaro de Lemos: Sim, uns vinte e poucos metros, de facto. O metal da superfície é... bem... eu nunca vi nada de semelhante. Tem uma cor branco-amarelada. Alguns espectadores mais curiosos a aproximar-se do objecto, apesar dos esforços da GNR para os manter afastados. Estão a tapar-me a vista. Cheguem-se para o lado por favor! (Pausa) Enquanto dois soldados e um cabo da GNR afastam a multidão, temos aqui o senhor Simões... o senhor Jacinto Simões, proprietário da quinta. Pode ser que ele tenha alguns factos interessantes a acrescentar. Senhor Simões, quer fazer o favor de contar aos nossos ouvintes tudo do que se lembrar a respeito desse estranho visitante que lhe caiu na propriedade? Aproxime-se mais, faça favor. Senhoras e senhores, fala o sr. Jacinto Simões.

M. Calado: (Afastado): Eu estava a ouvir telefonia...

Álvaro de Lemos: Aproxime-se um pouco e fale mais alto, por favor!

M. Calado: Como?

Álvaro de Lemos: Mais perto e mais alto por favor!

M. Calado: Ah! Pois eu estava a ouvir a telefonia e quase a adormecer. O tal professor estava a falar de Marte e eu estava meio a dormir e meio...

Álvaro de Lemos: Sim, Sim senhor Simões. E que aconteceu então?

M. Calado: Como eu ia dizendo, estava a ouvir telefonia, quase a adormecer...

Álvaro de Lemos: Sim, sim, senhor Simões. E foi então que viu qualquer coisa?

M. Calado: Não foi logo. Primeiro ouvi uma coisa.

Álvaro de Lemos: E que foi que ouviu?

M. Calado: Uma espécie de assobio. Assim: sssssssss, como um foguete.

Álvaro de Lemos: E depois?

M. Calado: Detei a cabeça fora da janela e iria jurar que estava a dormir ou a sonhar!

Álvaro de Lemos: Sim?

M. Calado: Poi. Vi uma espécie de rasto esverdeado e depois, zás! Uma coisa a bater no chão com toda a força. Até me deseqilibrei.

Álvaro de Lemos: Assustou-se, senhor Simões?

M. Calado: Bom... não... não sei bem. Parece-me que fiquei um bocado atrapalhado, não é? O senhor está a perceber?

Álvaro de Lemos: Sim senhor. Muito obrigado, senhor Simões.

M. Calado: Quer que eu diga mais alguma coisa?

Álvaro de Lemos: Não, não, obrigado! Está bem assim.
Estimados ouvintes, acabam de ouvir o senhor Jacinto Simões, proprietário da Quinta das Conchas, onde caiu o objecto. (Pausa) Gostava de poder descrever-vos a atmosfera, o cenário deste espectáculo fantástico. Dezenas de automóveis páram num campo atrás de nós. A GNR está a tentar interromper o trânsito que liga à estrada marginal, mas não consegue nada. Os automóveis continuam a chegar. Os faróis iluminam a cratera onde se encontra o objecto. Chegam agora dois carros dos Bombeiros Voluntários de Carcavelos, pois receia-se que o objecto, que se encontra em brasa, possa provocar algum incêndio. Alguns espíritos mais aventureiros aproximam-se da cratera. As silhuetas de várias pessoas recortam-se no brilho do metal.

Um Zumbido leve que permanece em fundo até ao ruído seguinte

Há um homem que quer lá ir tocar. Está a discutir com um Guarda Republicano. O guarda vence. Agora, caros ouvintes, há uma coisa a que não me referi, com toda esta excitação, mas que cada vex mais distinta. Talvez já a tenham ouvido. Escutem...

Longa Pausa - O zumbido sobe um pouco de intensidade

Ouvem? É um estranho som, um zumbido vindo de dentro do objecto. Vou aproximar-me mais. Assim... (Pausa) Agora estou a menos de quinze metros. Ouvem?

O mesmo zumbido sobe mais de intensidade

Álvaro de Lemos: Professor Franco! Professor!

Artur Mourato: Diga, por favor.

Álvaro de Lemos: Poderá explicar-nos a razão daquele som que vem de dentro do objecto?

Artur Mourato: Não sei bem. Talvez o arrefecimento desigual da superficie.

Álvaro de Lemos: Continua a penasr que se trata de um meteoro, senhor professor?

Artut Mourato: Não sei o que hei-de pensar. A superfície é nitidamente extra-terrena - não há nada semelhante na Terra. A fracção dos meteoros com a atmosfera da Terra costuma esburacá-los. Este é liso e, como vê, de forma cilíndrica.

Vozes a Cochicharem - Ambiente de multidão - Ruídos diversos ao ar livre

Álvaro de Lemos: O professor Franco afastou-se agora para cumprimentar um indivíduo que acaba de chegar. Julgo que seja um colega do professor...

Ouvem-se alguns cochichos não identificáveis

Álvaro de Lemos: Exactamente! É o doutor Carlos de Melo, da Central Meteorológica de Lisboa. Senhor doutor Carlos de Melo! Senhor doutor, por favor! Estamos a fazer uma reportagem directa do estranho fenómeno que se está passando aqui, na Quinta das Conchas, em Carcavelos.
Poderá dar-nos a sua opinião sobre o estranho objecto que temos na nossa frente?

Matos Maia: Por ora não posso dizer nada de concreto. Acabo de chegar e apenas lhe sei dizer que nunca vi nada semelhante a isto.

Álvaro de Lemos: E quanto a este estranho zumbido?

Matos Maia: Meu caro, sei tanto quanto você!

Álvaro de Lemos: Muito obrigado, doutor Melo. Senhores ouvintes, acabam de ouvir algumas palavras do doutor Carlos de Melo, da Central Meteorológica de Lisboa. (Breve Pausa) Encontram-se já na Quinta das Conchas jornalistas e repórteres, que disparam as suas máquinas fotográficas sobre o estranho objecto. Chegou, agora, também, uma equipa da televisão. A curiosidade e a emoção de centenas de pessoas que se encontram é indescritível. Cada vez chega mais gente.

Aumenta o clamor de vozes - Grande burburinho

Álvaro de Lemos: Esperem! Está acontecer qualquer coisa. Estimados ouvintes, isto é fantástico! O topo do objecto está-se a levantar! A tampa está a desenroscar-se! Deve ser oco!...

De súbito o ruído de uma enorme peça de metal a cair

Álvaro de Lemos: Caros ouvintes, isto é a mais assustadora a que eu assisti na minha vida... Esperem! Está alguém a sair do tubo! Alguém ou alguma coisa. Daqui vejo dois círculos a espreitarem daquele buraco negro. Parecem... olhos. Pode ser uma cara. Podia ser...

Gritos de horro da multidão - berros diversos

Álvaro de Lemos: Santo Deus! Está qualquer coisa a sair da sombra como uma serpente cinzenta... E, agora, outra... e outra. Parecem tentáculos... Já lhe vejo o corpo. É enorme e brilha como coiro molhado. Mas a cara!? É indescritível! É com custo que consigo continuar a olhá-la... Tem olhos negros que brilham como os de uma serpente. A boca é em V e a saliva cai-lhe dos lábios sem orla, que parecem tremer e pulsar. O monstro, ou lá o que é, mal pode mover-se. Parece carregado por... pela gravidade, talvez. A criatura está a erguer-se. A multidão recua. Já viram o bastante. Isto é uma experiência extraordinária! Não encontro palavras... Estou levando o microfone comigo enquanto vos falo. Tenho de interromper a descrição até encontrar um sitio melhor. Entretanto, não desliguem os vossos receptores!

Pequena "Branca"

António Revez: Estúdios da Rádio Renascença.

Disco (piano 20 segundos)

António Revez: Vamos ligar novamente, a Carcavelos, para o nosso repórter Álvaro de Lemos. Atenção a Carcavelos!

Pequena "branca" - Ruído de multidão - Sirenes - Claxons diversos - Ruídos ao ar livre

Álvaro de Lemos: Caros Ouvintes, cá estou, atrás de um muro de pedra que circunda a Quinta das Conchas do senhor Simões. Daqui vejo toda a cena. Dar-vos-ei todos os pormenores enquanto puder falar. Chegaram mais praças da GNR. Estão a formar um cordão de uns trinta homens em frente da cratera. Agora já não é preciso empurrar a multidão para trás. Já ninguém quer aproximar-se. Um capitão da GNR conversa com alguém.
Daqui não vejo quem seja. Ah, sim, creio que é o professor Franco. É exactamente. Agora separam-se. O professor afastou-se para um lado, estudando o objecto, enquanto um cabo e duas praças da GNR avançam com qualquer coisa na mão. Já vejo o que é. É um lenço branco amarrado a uma vara - uma bandeira de paz! Se é que aquelas criaturas sabem o que isto quer dizer - isto ou qualquer outra coisa...
Esperem! Está a acontecer qualquer coisa!!!

Um Silvo seguido de um zumbido que aumenta de intensidade - permanecem em segundo plano todos os ruídos anteriores

Álvaro de Lemos: Uma forma corcovada está a sair da cratera. Vejo um raiozinho de luz a dar num espelho. Que é aquilo??? Saltou um jacto de chamas de um espelho e vai direito aos homens que avançam. Dá-lhes em cheio! Santo Deus!, Incendiaram-se!!!

Gritos Vários e muitos guinchos de medo

Álvaro de Lemos: Agora o campo está todo em chamas!

Explosões - Ruído de Materiais ardendo - Burburinho - Diversos ruídos ao ar livre - Multidão

Álvaro de Lemos: O fogo alastrou-se ao pomar da Quinta, aos barracões e aos depósitos de gasolina dos carros! Está a espalhar-se por toda a parte. Vem para este lado. Está a uns quinze metros à minha direita...

Estrondo de rebentamento de microfone - Silêncio absoluto durante 10 segundos

António Revez: Senhoras e senhores, devido a circunstâncias imprevistas, somos forçados a interromper a transmissão que estávamos fazendo, directamente, da Quinta das Conchas, em Carcavelos. Parece haver qualquer dificuldade na emissão local. Voltaremos a ligar assim que nos for possível. Entretanto vamos ler um boletim de San Diego, Califórnia, Estados Unidos da América que acaba de chegar: "O professor Carl Pierson, falando num jantar da Sociedade Astronómica da Califórnia, emitiu a opinião de que as explosões de Marte não passam, indubitavelmente, de graves perturbações vulcânicas na superfície do planeta".

Gong

Rádio Renascença, emissora católica portuguesa. Continuamos a transmitir solos de piano.

Disco - (solo de piano)

António Revez: Senhores ouvintes, acabam de nos entregar uma notícia que veio de Carcavelos pelo telefone. Pelo menos quarenta pessoas, incluindo seis guardas da GNR jazem mortas num campo, cerca da Quinta das Conchas.
Os corpos estão queimados e torcidos, de modo a tornar impossível qualquer identificação. (Pausa) Atenção a uma mensagem especial do coronel Brás da cunha, comandante-geral da Defesa do Território.

Pequena pausa

Mário de Castro: A pedido das autoridades de Cascais, as vilas de Carcavelos, Oeiras, Santo Amaro e Parede estão sob a lei marcial. Ninguém poderá entrar nesta área senãomunido de um passaporte fornecido pelas autoridades civis ou militares. Quatro Companhias do Batalhão Independente de Infantaria 22 avançam de Paço de Arcos para Carcavelos e auxiliarão os civis. Muito obrigado!

Pequena Pausa

António Revez: Acabam de ouvir o coronel Brás da Cunha, comandante-geral da Defesa Nacional do Território. Entretanto chegam-nos mais noticias da catástrofe de Carcavelos. As estranhas criaturas, depois do seu assalto mortal, voltaram a esconder-se no tubo e não tentaram deter os esforços dos bombeiros para irem buscar os corpos e apagar o incêndio. Vários batalhões de Bombeiros da Localidade e outros que, entretanto, chegaram de Oeiras, Paço de Arcos e Cascais, estão a combater as chamas que ameaçam todos os arredores. (Pausa ) Não conseguimos estabelecer contacto com a nossa equipa em Carcavelos, mas esperamos poder ligar o mais breve possível. Entretanto, vamos... um momento, por favor.

Cochichar

António Revez: Senhoras e senhores, conseguimos, finalmente, estabelecer comunicação com algumas testemunhas da tragédia. O professor Franco, juntamente com os nossos enviados especiais José Dias e José Manuel Pinto, companheiros de equipa do nosso repórter Álvaro de Lemos, conseguiram isolar-se do local da tragédia e encontram-se agora numa vivenda de Carcavelos, próximo da Quinta das Conchas, onde o professor montou um posto de observação. Como cientista, ele vai dar-nos a sua explicação da calamidade. Vão ouvir a voz do professor Franco, transmitida directamente. Atenção!

Pausa - Ruídos diversos de ligação - Pequena "Branca"

Artur Mourato: Sobre as criaturas do cilindro da Quinta das Conchas não vos posso dar informação categórica, quanto à sua origem, natureza ou intenção aqui na Terra. Dos seus instrumentos destruidores, posso arriscar uma conjuntura. À falta de melhor termo referir-me-ei à arma desconhecida como um raio de calor. É mais do que evidente que as criaturas têm as criaturas têm conhecimento científicos muito mais avançados do que os nossos. Presumo que são capazes de gerar um calor intenso numa câmara de incondutibilidade praticamente absoluta. Projectam esse calor intenso num feixe paralelo contra qualquer objecto, por meio de um espelho parabólico, de composição desconhecida, tal como o espelho de um farol projecta um raio de luz. É esta, suponho eu, a origem do raio de calor.

Atenuação dos ruídos - pequena branca


ANTÓNIO REVEZ
: Directamente de Carcavelos, transmitimos uma opinião científica
do fenómeno pelo professor Dr. Manuel Franco.

GONG


Estimados ouvintes, vamos ler outro boletim de Carcavelos.
E uma notícia curta, informando que o corpo carbonizado de Álvaro de Lemos,
o nosso malogrado repórter, foi identificado num hospital de campanha improvisado em
Carcavelos pela Cruz Vermelha. Agora outro boletim de Lisboa: "A Secretaria da Cruz Vermelha Nacional informa que seis unidades de emergência da Cruz Vermelha foram
enviadas para o posto da D.N.T. estacionado em Oeiras, a cerca de dois quilómetros
do local da tragédia" ( Pausa) Outro boletim de Carcavelos, fornecido conjuntamente
pela GNR e Polícia locais: "Os incêndios na Quinta das Conchas e arredores estão já dominados. Na cratera está tudo quieto e da boca do cilindro não se nota sinal de vida". (Pausa)
E agora, senhoras e senhores, uma declaração especial do Dr. Pedro da Fonseca,
nosso sub-director, a cargo de quem estão estas emissões.

JOSÉ PINTO
: Recebemos um pedido da D.N.T., de Oeiras, para colocarmos à sua disposição
todas as nossas facilidades radiofónicas. Em vista da gravidade da situação e convictos
de que a Rádio tem uma decisiva responsabilidade em servir o interesse público, em todas
as ocasiões, pomos o nosso serviço à disposição da D.N.T., de Oeiras.

Pequena pausa

ANTÓNIO REVEZ: Vamos ligar, agora, para o Quartel General da D.N.T, instalado nas
vizinhanças de Carca velos. Atenção a Carcavelos!

PEQUENA "BRANCA" - VOZES - RUÍDOS AO AR LIVRE

E. CARVALHAIS: Fala o capitão Agostinho Nunes, do Corpo de Voluntários anexo à D.NiT,
agora em operações militares nos arredores de Carcavelos. A situação provocada pela presença de indivíduos de natureza não identificada, foi dominada completamente.
O objecto cilíndrico, que j az numa cratera que fica logo abaixo da nossa posição, está rodeado, por todos os lados, por oito destacamentos de infantaria, sem peças de grande calibre, mas devidamente armados com espingardas e metralhadoras.
Todas as razões para alarme, se é que alguma vez existiram, são agorainjustificadas.
As criaturas, sejam elas quais forem, nem se arriscam a deitar a cabeça de fora. Daqui vejo distintamente o esconderijo delas, à luz dos nossos projectores. Mesmo com os recursos que lhes atribuem, as criaturas não poderão resistir a um fogo cerrado de metralhadora. Seja como for, isto é, pêlos menos, um bom treino para as tropas. Uma das Companhias está a estender-se pelo flanco esquerdo. Uma avançada rápida sobrea cratera e o caso fica arrumado.
(Pequena pausa) Vejo agora qualquer coisa em cima do cilindro. Não! Não é nada!
Apenas uma sombra. As tropas estão agora à porta da Quinta das Conchas. Mil e quinhentos homens, devidamente armados e equipados, a cercarem um tubo de metal
velho!...

A PARTIR DESTE MOMENTO E ATÉ FINAL DO RELATO COMEÇA AOUVIR-SE UM RUÍDO ESTRANHO, ESPÉCIE DE ZUMBIDO, QUE VAI AUMENTANDO DE INTENSIDADE

Esperem! Afinal NÃO É uma sombra! É qualquer coisa a mexer-se, metal sólido, uma espécie de carapaça a sair do cilindro! Está a... cada vez mais alto! está de pé sobre umas andas! Ergue-se, realmente, em cima duma espécie de estrutura metálica. Agora está mais alto do que as árvores e os projectores dão-lhe em cheio! É incrível!
Fantás................

CORTE SÚBITO DA TRANSMISSÃO - "BRANCA" DE 20 SEGUNDOS

ANTÓNIO REVEZ: Por motiyos alheios à nossa vontade, foi interrompido o contacto telefónico
que mantínhamos com a nossa equipa em Carcavelos. Houve qualquer impedimento na transmissão local, cujas causas não nos foi possível averiguar por enquanto.
Tentaremos entrar em contacto com a nossa equipa logo que nos seja possível.

GONG

Estúdios de Lisboa da Rádio Renascença, emissora católica portuguesa.

Disco - (marcha militar: 30 segundos)

ANTÓNIO REVEZ: A agência noticiosa International Press tem-nos fornecido diversos boletins de vários países, assinalando a queda de máquinas cilíndricas idênticas à que caiu na Quinta das Conchas, em Carcavelos. Assim, em França, foram assinaladas quedas desses engenhos em Marselha, Lyon e arredores de Paris. Em Espanha, verificou-se, também, a descida de engenhos idênticos em Valência, Málaga, Sevilha e em vários pontos da província da Andaluzia. Em Inglaterra, verificou-se a queda de
máquinas nas regiões de Cornwail, Sussex e Kent. O Dr. James Hawkes, director -geral do Centro Astronómico e Meteorológico de Londres, concedeu uma entrevista à imprensa, rádio e televisão, sobre os estranhos fenómenos. É seu parecer que o caso é bastante grave, opinando aquele ilustre astrónomo que deve tratar-se de engenhos de guerra de outro planeta. O caso toma proporções catastróficas em todo o mundo. O nosso Departamento de Noticiários está coligindo as mais diversas
informações que nos chegam a todo o momento. Dentro de breves instantes voltaremos a dar mais notícias. Pedimos a todos os nossos ouvintes que mantenham os seus receptores sintonizados na nossa estação, tanto em ondas médias como em ondas curtas.
Este grave problema é do maior interesse para todos nós.

Disco - (solo de piano 40 segundos)

ANTÓNIO REVEZ: Há pouco não demos uma informação aos nossos ouvintes, por não termos assegurada a sua realização, o que só agora sucedeu. Não se poupando a esforços e despesas, e dada a gravidade das estranhas ocorrências que temos vindo a relatar, a nossa Secção de Produção conseguiu obter, dos Correios, uma linha telefónica directa com Londres. Assim, vamos ligar, imediatamente, para a BCC de Londres. Atenção, senhoras e senhores. Atenção à BCC de Londres. Atenção, Londres!

PEQUENA "BRANCA" - DIVERSOS RUÍDOS PARASITAS - DURANTE O RELATO OUVEM-SE DIVERSOS RUÍDOS E A VOZ É ESCUTADA COM INTERFERÊNCIAS, ORA BAIXANDO ORA SUBINDO DE NÍVEL

AUGUSTO XAVIER: London cailing. London cailing. This is BCC speaking in direct transmission with through the
brodcasting station Rádio Renascença. During the last 24hours, many strange incidents o f unknown and unidentified
origin have taken place m different paris o f Great Britam.
Strange cylindrical machines have fallen in different paris o f the country spreading terror and desolation and causing
a great number of deaths. According to official statistics, more than 5. OOOpersons have succumbed, victims o f a strange and deathly smoke expelled by these machines. The situation in the whole country is terribly serious and the Government is elaborating a detailed program of defence, and the áreas attacked by the strange enemies are being isolatedfrom the territórios. Marital law was proclaimed in the country. Many of these strange machines were noted in the differents paris of London. The enemy hás practically conquered the regions o f the Essex and Kent. On its way the enemy hás razed almost everything to the ground including houses andfields and caused a considerable number o f deaths. The general situation in England is one of authentic terror. Many patheüc scenes were evidenced and numerous cases o f suicides were recorded on account o f the fear which these machines have spread. Here, portuguese listners, we end our news program. Finally, there is nothing that we can do except follow the situation with the greatest possible calme and place our entire trust in His Divine Mercy.
Let us place our faith in Goa. In Him lies our oníy possible salvation. Have mercy on us. Good night ladies and gentiemen.
BCC cailingfrom London. Attention, Lisbon! Attention Rádio Renascença! Attention Lisbon!

DIVERSOS RUÍDOS PARASITAS - 1NTERMITÊNC1AS - «BRANCA» DE 5 SEGUNDOS

ANTÓNIO REVEZ: Acabámos de transmitir um noticiário directo da BCC de Londres. Dadas as más condições de captação e para completo esclarecimento dos nossos ouvintes, passamos a traduzir esse noticiário. \cf1 Pausa) «A BCC falavos em transmissão directa telefónica com Lisboa, por intermédio dos emissores da Rádio Renascença. Nas últimas
24 horas, têm ocorrido diversos incidentes de origem não identificada, em vários pontos da Grã-Bretanha. Esquisitas máquinas cilíndricas têm caído nos mais variados pontos do nosso país, espalhando a morte, desolação e terror. Segundo estatísticas oficiais, já morreram cerca de 5.000 pessoas, vitimadas por um estranho e mortífero fumo negro que expelem. A situação em todo o país é bastante grave e o Governo está elaborando um pormenorizado programa de defesa, e as áreas atacadas pêlos estranhos inimigos estão sendo isoladas do restante território. Foi decretada a lei marcial em todo o país. Foi assinalado ,o avanço de diversas máquinas sobre Londres e o inimigo tem, praticamente, conquistadas as
regiões de Essex e Kent. À sua passagem, as casas, pessoas e campos vão sendo dizimados. A situação geral em Inglaterra é de autêntico terror. Têm-se registado as mais variadas cenas patéticas, e já há alguns casos de suicídio, por parte de pessoas apossadas de verdadeiro pavor.
(Pequena pausa)
Terminam aqui, ouvintes portugueses, as nossas notícias. Resta-nos, em última instância, aguardar os acontecimentos com a maior calma possível e confiarmos, inteiramente, na misericórdia divina. Tenhamos fé em Deus!

GONG

De Lisboa transmite a Rádio Renascença, trabalhando com todos os seus emissores: estações de Lisboa e Porto em ondas médias e a estação de ondas curtas CSB52 na banda dos 48 metros.

Disco - (solo de piano 40 segundos)

ANTÓNIO REVEZ: Senhoras e senhores, estimados ouvintes, temos uma grave notícia a dar-vos.
Pausa) Por muito incrível que pareça, tanto a observação científica como os nossos próprios olhos, levam à inevitável conclusão de que os estranhos seres que aterraram hoje à noite em Carcavelos, são a vanguarda de um exército invasor do planeta Marte. A batalha que teve lugar hoje, naquela localidade, acabou por uma das derrotas mais espantosas sofridas por um exército nos tempos modernos. Dois mil homens, armados de espingardas e metralhadoras, contra uma única máquina dos invasores vindos de Marte. Cinquenta sobreviventes que se saiba. O resto espalhado no campo de batalha, desde Carcavelos a Oeiras, esmagados e espezinhados pêlos pés metálicos do monstro, ou carbonizados pelo seu raio de calor. O monstro domina agora a zona entre Carcavelos e Caxias. Algumas linhas de comunicação foram cortadas, estando inteiramente paralisados os comboios da linha de Cascais. As estradas, desde Cascais à Cruz Quebrada, estão apinhadas de uma multidão histérica. As reservas de Polícia e da GNR são incapazes de controlar essa fuga desordenada. Calcula-se que, dentro em pouco, os fugitivos devam quase duplicar a população da capital. A esta hora a lei marcial foi decretada em toda a região costeira até Cascais.

Disco - (solo de piano 15 segundos)

ANTÓNIO REVEZ: Atenção, estimados ouvintes. Vamos ligar para o Ministério para uma transmissão especial. Vai falar o secretário das Relações Interiores.

RUÍDOS DIVERSOS DE LIGAÇÃO - PEQUENA «BRANCA» - SALA COM ECO

GOMES ALMEIDA: Cidadãos da Nação! Não tentarei esconder a gravidade da situação em que se encontra o país, nem o interesse do Governo em proteger as vidas e propriedades do seu povo. No entanto quero marcar bem no vosso espírito de todos vós, cidadãos particulares ou oficiais públicos a necessidade premente de acção calma e efectiva. Afortunadamente, este inimigo formidável está confinado ainda numa área comparativamente pequena, e podemos ter fé de que as forças militares lá o conservarão. Entretanto, confiando em Deus, cada um de nós deve continuar a cumprir os seus deveres, de maneira a enfrentar este adversário destruidor, como uma Nação unida, corajosa, consagrada à conservação da supremacia humana na Terra! Muito obrigado pela vossa atenção!

RUÍDOS DIVERSOS DE LIGAÇÃO - PEQUENA «BRANCA»

ANTÓNIO REVEZ:
Acabam de ouvir o secretário das Relações Interiores, numa mensagem dirigida ao povo da Nação. (Pausa) Amontoam-se no nosso estúdio tantos boletins noticiosos que é impossível lê-los todos. Receberam-se telegramas de corpos científicos franceses, ingleses e italianos a oferecerem assistência. Os astrónomos comunicam que continuam a dar-se explosões, a intervalos regulares, no planeta Marte. A maioria é de opinião que o inimigo receberá reforços de outras máquinas. (Pausa) Fizeram-se tentativas para localizar o professor Franco e os restantes componentes da nossa equipa enviada a Carcavelos.
Receia-se que tenham morrido na recente batalha que se travou na região. Aviões de reconhecimento avistaram três máquinas marcianas, visíveis acima da copa das árvores, caminhando para o Norte, com a população a fugir-lhes.
Não se servem do raio de calor, e embora avancem com pouca velocidade, escolhem, cuidadosamente, o caminho.
Parecem esforçar-se, conscientemente, para evitar a destruição de cidades e campos, mas param para arrancar cabos eléctricos, pontes e linhas de caminho-de-ferro. O objectivo dos invasores parece ser esmagar toda a resistência, paralisar as comunicações e desorganizar a sociedade humana. Notícias do Porto informam que grupos de camponeses deram com um cilindro enterrado num campo decultivo, perto de Vila Nova de Gaia. Do Porto partiu arti
lharia para destruir a segunda unidade invasora, antes que o cilindro se abra e seja montada a máquina de combate. Outro boletim, de Torres Vedras: «Aviões de reconhecimento avistaram máquinas inimigas, em número de três, aumentando de velocidade para o Norte, destruindo casas e árvores com a pressa, evidente, de se reunirem aos seus aliados que saíram de Carcavelos. As máquinas foram também vistas por um grupo de pessoas a leste de Caldas da Rainha». Agora uma informação dos Serviços da Aeronáutica: «Uma esquadrilha de bombardeiros, munidos de
explosivos pesados, segue para o Norte em perseguição do inimigo. Aviões de reconhecimento actuam como guias. Não perdem de vista o inimigo».

GONG

ANTÓNIO REVEZ:
Senhores ouvintes, por intermédio dos nossos estúdios do Porto, conseguimos estabelecer uma comunicação especial com a linha avançada de Artilharia em Vila Nova de Gaia. Vamos fazer uma transmissão directa na zona onde o inimigo avança. Atenção Porto! Atenção Rádio Renascença!

RUÍDOS DIVERSOS DE LIGAÇÃO - PEQUENA «BRANCA»
GONG


DANIEL GONÇALVES: Estúdios do Porto da Rádio Renascença. Vamos ligar para as linhas avançadas de Artilharia em Vila Nova de Gaia.

RUÍDOS DIVERSOS DE LIGAÇÃO - PEQUENA «BRANCA» - RUÍDOS VÁRIOS AO AR LIVRE

OSCAR RAMOS: Caros ouvintes: estamos junto de um Regimento de Artilharia em Vila No vá de Gaia. Vai travar-se com bate com as máquinas inimigas. Atenção! Vai principiar uma das mais estranhas batalhas de todos os tempos!

JOAQUIM PEDRO:
Alça 32 metros!

ARTUR MOURATO:
32 metros.

JOAQUIM PEDRO: Direcção 39 graus!

ARTUR MOURATO:
39 graus.

JOAQUIM PEDRO: Fogo!

REBENTAMENTO DE OBUSES - EXPLOSÕES VÁRIAS - PAUSA

COELHO DA SILVA: Em cheio, meu tenente! Acertámos no tripé de um deles. Pararam! Os outros estão a ver se o consertam.

JOAQUIM PEDRO: Depressa! Alça 30 metros!

ARTUR MOURATO: 30 metros.

JOAQUIM PEDRO: Direcção 27 graus!

ARTUR MOURATO: 27 graus.

JOAQUIM PEDRO: Fogo!

REBENTAMENTO DE OBUSES - EXPLOSÕES VÁRIAS - PAUSA

COELHO DA SILVA: Não posso ver a explosão, meu tenente!
Eles estão a lançar fumo!

JOAQUIM PEDRO: O quê?

COELHO DA SILVA: Um fumo negro, meu tenente! Vem para este lado. Junto ao chão. Vem para aqui!

JOAQUIM PEDRO: Ponham as máscaras antigas. (Pausa)

Prepara-te para disparar! Alça 24 metros!

ARTUR MOURATO: 24 metros.

JOAQUIM PEDRO: Direcção 29 graus!

ARTUR MOURATO: 29 graus.

JOAQUIM PEDRO: Fogo!

EXPLOSÕES VARIAS - REBENTAMENTOS DIVERSOS - PAUSA

COELHO DA SILVA: Continuo a não ver nada, meu tenente! O fumo está mais perto!

JOAQUIM PEDRO: Alça 23 metros! (Tosse)

ARTUR MOURATO: 23 metros. (Tosse)

JOAQUIM PEDRO: Direcção 22 graus! (Tosse)

ARTUR MOURATO: 22 graus. (Tosse)

SÚBITO SILÊNCIO DURANTE 10 SEGUNDOS

DANIEL GONÇALVES: Por motivos inteiramente desconhecidos e alheios à nossa vontade, foi interrompida a linha de comunicação que mantínhamos com o grupo de Artilharia pesada em Vila Nova de Gaia. Vamos ligar para os estúdios de Lisboa. Atenção Lisboa!

RUÍDOS DIVERSOS DE LIGAÇÃO - PEQUENA «BRANCA» - GONG

ANTÓNIO REVEZ:
Aqui Lisboa, transmite Rádio Renascença, emissora católica portuguesa. (Pausa) Por especial
deferência dos Serviços de Transmissão e Escuta da Aeronáutica Nacional, vamos ligar para bordo de um bombardeiro da esquadrilha que sobrevoa o inimigo.
Atenção!

RUÍDOS DIVERSOS DE LIGAÇÃO -.PEQUENA «BRANCA» - A VOZ OUVE-SE SEMPRE ATRAVÉS DO MICROFONE DE MÁSCARA - SEMPRE EM
FUNDO, RUÍDO DE MOTORES DE AVIÕES


CARLOS PINTO: Fala bombardeiro V-8-43, da Base Aérea n.° 4, de Cascais, tenente Vasco de Sousa, comandando 8 bombardeiros. Relatório ao comandante Cerqueira da Base Aérea de Cascais. Relatório ao comandante Cerqueira, Base Aérea de Cascais. À vista as máquinas de tripés do inimigo.
Reforçadas com três máquinas do cilindro de Vila Nova de Gaia. Seis ao todo. Uma delas parcialmente mutilada.
Provavelmente atingida por uma granada de artilharia. A artilharia parece ter-se calado. Junto à terra vê-se um espesso nevoeiro negro, de densidade extrema e natureza desconhecida. Não há sinais do raio de calor. O inimigo agora voltou para o Sul. Uma máquina estacou. O objectivo evidente é a cidade de Lisboa. Estão a deitar abaixo um poste de alta tensão. As máquinas estão agora juntas, e nós preparados para o que vier.
Descrevemos círculos, prontos para atacar. Mais uns metros e estaremos sobre a primeira. Oitocentos metros...
Seiscentos... Quinhentos... Duzentos... Lá vão elas! Levantam um braço gigante! Um clarão verde! Estão a regar-nos com chamas! Seiscentos metros de altitude...

COMEÇA O RUÍDO DE MOTOR DE AVIÃO COM FALHANÇOS INTERMITENTES

Os motores estão a parar! Já não podemos largar as bombas. Só há uma coisa a fazer: atirarmo-nos para cima delas com avião e tudo. Picamos sobre o primeiro!

CESSAM COMPLETAMENTE OS RUÍDOS DOS MOTORES

Agora os motores pararam! Quinhen...

CESSAM TODOS OS RUÍDOS - PEQUENA «BRANCA» - AS CONVERSAÇÕES DOS TELEGRAFISTAS SÃO OUVIDAS COM LIGEIRO ECO

E. CARVALHAIS:
Aqui Base Aérea de Cascais chamando a Base de Gaia. Fala Cascais chamando Gaia. Transmita, por favor. Transmita, por favor.

MATOS MAIA:
Fala 8KR Base Aérea de Gaia. Pala Base Aérea de Gaia. Oito bombardeiros travaram combate com as máquinas inimigas. Motores inutilizados por raio de calor. Caíram todos. Uma máquina destruída. O fumo negro e venenoso espalha-se por toda a parte. As máscaras antigas são inúteis.
A população deve procurar os espaços abertos e evitar as áreas congestionadas. O fumo espalha-se por toda a parte...

E. CARVALHAIS: RC2 chama 8KR. RC2 chama 8 KR. ( Pausa)
Diga se me ouve em boas condições. RC2 chama 8 KR! Recebe bem? Que aconteceu? 8 KR que aconteceu?
Transmita. Passo à escuta. (Pausa) 8 KR transmita! Atenção 8 KR!

«BRANCA» DE 5 SEGUNDOS - SINOS TOCANDO, EM FUNDO - AMBIENTE DE RUA - RUÍDOS E SONS DIVERSOS DE GRANDE MULTIDÃO

JOAQUIM PEDRO: Aqui o repórter de exteriores da Rádio Renascença. Estou a falar do terraço do edifício «Philips», próximo da Praça Marquês de Pombal. Os sinos que ouvem tocam para avisar o povo que abandone a cidade!
Os marcianos aproximam-se! Calcula-se que cerca de dois milhões de pessoas se deslocaram para o Sul. Todas as comunicações com o litoral foram interrompidas há dez minutos. Não há mais defesa! O exército, a artilharia e a aviação, tudo derrotado! Esta transmissão pode ser a última! Aqui estaremos até ao fim, no cumprimento do nosso dever, sem saber se teremos ouvintes a escutar-nos! Lá em baixo, nas ruas, passa grande multidão cantando hinos religiosos.

QUASE EM FUNDO, MAS SOBRE TODOS OS OUTROS RUÍDOS, OUVEM-SE VOZES CANTANDO UM HINO RELIGIOSO


No Tejo cruzam-se dezenas de embarcações, de toda a espécie, transportando a população em fuga!

• APITOS E SIRENES DE BARCOS, EM FUNDO

Nas ruas não se pode andar. A multidão faz mais barulho do que na noite de Ano Novo. Um momento! Já se vê o inimigo! Cinco grandes máquinas... Vejo-as daqui, passando o Tejo a vau, como um homem a molhar os pés num regato!
Agora a primeira máquina chegou ao lado de cá do rio. Está no Terreiro do Paço, parada, observando a cidade.
A sua cabeça de aço ultrapassa os edifícios dos Ministérios! Está à espera das outras. Erguem-se como uma linha de novas torres a sul da cidade! Levantaram, agora, os braços de metal!
É o fim! Deitam fumo, um fumo negro que se espalha pela cidade. A gente nas ruas jaó viu. Correm para o cais, milhares e milhares a atirarem-se à água! O fumo atravessa, agora, a Avenida da Liberdade e as ruas adjacentes!
Chegou ao Marquês de Pombal! Avenida Fontes Pereira de Melo. Entra pelas ruas Bramcaamp e Joaquim António de Aguiar! Está a uns cem metros! Continua subindo! Cinquenta metros! Vin...

«BRANCA» DE 15 SEGUNDOS

ANTÓNIO REVEZ: Senhores ouvintes, vamos transmitir uma gravação feita pelo professor Dr. Manuel Franco, com um relatório minucioso de todos os incidentes ocorridos, desde que perdemos o contacto com este eminente astrónomo, após a batalha travada em Carcavelos. Vamos ouvir o professor numa gravação feita por ele mesmo. Das naturais deficiências técnicas desta gravação, pedimos muita desculpa a todos os ouvintes.

PEQUENA "BRANCA" - DURANTE TODO O RELATO ALGUMAS INTERFERÊNCIAS PARASITAS

ARTUR MOURATO:
Ao relatar estas notas, estou obcecado pela ideia de que possa ser eu o último homem vivo na Terra. Tenho estado escondido nesta casa vazia de Oeiras - uma pequena ilha de claridade isolada do resto do mundo por uma cortina de fumo negro. Tudo o que aconteceu antes da chegada destas criaturas monstruosas ao nosso mundo, parece fazer parte doutra vida - uma vida que não tem continuidade com a actual existência furtiva do desgraçado solitário que improvisa estas notas faladas numa pequena máquina de gravação, de pilhas, deixada pêlos infelizes rapazes da Rádio Renascença. Olho para as minhas mãos enegrecidas, para os sapatos rotos, para a roupa rasgada e tento ligá-los com um professor, que vive em Cascais, e que há pouco viu, no seu telescópio, um clarão cor-de-laranja num planeta distante.
A minha mulher, os meus colegas, os livros, o Observatório, o... o meu mundo - que é feito deles? Existiram alguma vez?
Serei eu Manuel Franco? Que dia é hoje? Existirão os dias sem calendários? Passará o tempo, se já não houver mãos humanas que dêem corda aos relógios? Fazendo esta espécie de diário falado, digo a mim próprio que estou a preservar a história humana em duas pequenas bobinas de fita magnética. Mas, para falar, tenho de viver, e para viver preciso de alimentar-me. Encontro pão bolorento na cozinha e uma laranja que ainda se pode comer. Estou de vigia à janela. De vez em quando vejo um marciano passar. O fumo ainda rodeia a casa com o seu círculo mortal. Mas, por fim, oiço um silvo e vejo, de repente, um marciano, na sua máquina, que varre o ar com um jacto de vapor, como a dissipar o fumo.
Encolho-me a um canto quando as enormes pernas de metal quase roçam pela casa. Exausto, pelo terror, adormeço.

(Pequena pausa) Quando acordei, a nuvem negra de gás levantara-se e nos prados calcinados, a norte, parece que passou uma tempestade de neve negra. Arrisco-me a sair de casa. Encontro uma estrada. Não há trânsito. Aqui e ali, um carro virado, com a bagagem entornada, um esqueleto negro. Sigo para o sul. Não sei porquê, sinto-me mais seguro indo atrás destes monstros do que fugindo deles. E vou sempre alerta. Se uma das máquinas deles aparecer por cima das copas das árvores, estou pronto para me estender de bruços no chão. Durante várias horas vagueio numa direcção aproximada para sul, através de um mundo destruído.

Encontro vacas mortas num campo. Mais longe as ruínas carbonizadas de uma quinta. Cheguei a um local cujos contornos julguei reconhecer vagamente, mas com os edifícios estranhamente nivelados, e anões, como se um gigante lhes tivesse cortado as torres mais altas com um gesto caprichoso da mão. Cheguei às portas da localidade. Descobri que era Algés, não demolida, mas humilhada, por não sei que capricho da avançada marciana. Pouco depois, com a sensação de estar a ser vigiado, avistei qualquer coisa agachada no vão de uma porta. Dei corda à máquina de gravar e meti o microfone no cinto. Dei um passo na direcção dele e criatura levantou-se. Era um homem. Um homem armado de uma faca comprida!

A. BAETAS:
Pare! Donde vem?

ARTUR MOURATO:
Venho... de muitos sítios. Há pouco tempo saí de Carcavelos.

A. BAETAS:
Carcavelos, hem? Foi aí que isto começou, não?

ARTUR MOURATO:
Creio que sim.

A. BAETAS: Que mala é essa?

ARTUR MOURATO:
Uma máquina de gravar.

A. BAETAS: Uma máquina de gravar... hum! (Ri) Aqui não há que comer! Toda esta região é minha! Todo este lado da vila até ao mar! Só há comida para um. Para que lado vai?

ARTUR MOURATO:
Não sei. Ando à procura de... de pessoas.

A. BAETAS (Nervoso): Que foi aquilo? Não ouviu uma coisa?

ARTUR MOURATO:
É um pássaro. Um pássaro vivo!

A. BAETAS: Agora um tipo até já repara que os pássaros têm sombra... Espere! Aqui estamos a descoberto. Vamos falar ali para a porta.

PASSOS DE DOIS HOMENS SOBRE EMPEDRADO

ARTUR MOURATO:
Tem visto marcianos?

A. BAETAS:
Foram para Lisboa. À noite o céu enche-se com os focos deles. Como se ainda lá vivessem pessoas... De dia não se vêem as .máquinas. Ontem dois deles levaram qualquer coisa grande do aeroporto. Creio que estão a aprender a voar.

ARTUR MOURATO:
Voar?

A. BAETAS: Sim, voar!

ARTUR MOURATO: Então é que a humanidade está acabada! Só ficámos nós os dois.

A. BAETAS: Eles firmaram-se bem! Aquelas estrelas verdes com certeza que continuam a cair todas as noites por aí. Só perderam uma máquina. Estamos prontos! Derrotados!

ARTUR MOURATO: Donde era você? Está de farda...

A. BAETAS: O que resta de uma farda! Era da D.N.T., da 1ª. Companhia. Qual história! Isto foi tanto uma guerra como há guerras entre os homens e as formigas.

ARTUR MOURATO: E nós somos as formigas... comestíveis! Já constatei isso. Que nos irão eles fazer?

A. BAETAS: Já pensei nisso tudo! Agora apanham-nos quando precisam. O marciano anda uns quilómetros e encontra logo uma multidão a fugir. Mas não hão-de fazer sempre assim... Passarão a caçar-nos, sistematicamente, guardando os melhores e armazenando-os em jaulas e gaiolas! Ainda nem sequer começaram...

ARTUR MOURATO: Não é possível!

A. BAETAS: Vai ver que é! O que aconteceu, até agora, foi porque nós não tivemos o bom senso de ficar quietos, e os maçámos com canhões e coisas dessas! Perdemos a cabeça e fugimos. Ora em vez de andarmos às cegas, dum lado para o outro, temos de nos adaptar às condições de agora. Cidades, Nações, civilização, progresso... ppfff!!!

ARTUR MOURATO: Mas se assim é não vale a pena viver!

A. BAETAS: Durante um milhão de anos ou coisa parecida, deixará de haver concertos e jantares nos restaurantes... Se é divertimento que quer... isso acabou-se!

ARTUR MOURATO: E que ficou então?

A. BAETAS: A vida! Eu quero viver! E você também. Não nos deixaremos exterminar! E não tenciono ser apanhado, engordado e criado como um porco. Isso não é para mim!

ARTUR MOURATO: Que vai fazer?

A. BAETAS: Vou continuar! Mesmo debaixo dos pés deles.
Tenho um plano... Como homens, estamos arrumados. Não sabemos o bastante. Temos de aprender muito, antes de nos aventurarmos. E precisamos de viver e continuar livres, enquanto aprendemos. Já planeei tudo, como vê...

ARTUR MOURATO: E então?

A. BAETAS: Bem, nem todos nós fomos feitos para animais selvagens, se é isso que teremos de ser. Foi para isso que eu o vigiei a si. Todos esses empregadinhos de escritório que aqui viviam, não podiam servir. Não têm fibra! Só estavam habituados a ir para os escritórios todas as manhãs. Vi centenas deles, correndo como doidos, para apanhar o comboio ou o eléctrico da manhã, com medo de serem despedidos por chegarem atrasados.
Voltando a correr à noite, com medo de chegarem tarde ao jantar. Com seguro de vida e um pequeno pé-de-meia para o caso de surgir uma doença. E aos domingos, preocupados com o futebol... com tudo e com nada! Os marcianos vêm mesmo a calhar para esses tipos.-Gaiolas espaçosas, boa comida, criação cuidada, nada de preocupações... Depois de uma semana de fuga com o estômago vazio, hão-de sentir-se felizes por serem apanhados!

ARTUR MOURATO: Você pensou em tudo, hem?

A. BAETAS: Se pensei! E há mais! Os marcianos hão-de domesticar alguns e ensinar-lhes habilidades. E quem sabe?!
São capazes de se tornar sentimentais ao pensarem no bichinho que cresceu e teve de ser abatido. E, provavelmente, ensinarão alguns a caçar homens...

ARTUR MOURATO: Não!!! Isso é impossível! Nenhum ser humano seria capaz de...

A. BAETAS (Interrompendo): ïsso é que é! Há homens que até hão-de ter prazer nisso! Se algum deles alguma vez vier atrás de mim ...

ARTUR MOURATO:
E, entretanto, você, eu e outros como nós... onde é que havemos de viver, enquanto os marcianos dominarem a Terra?

A. BAETAS:
Tenho tudo pensado! Viveremos debaixo da terra! Lembrei-me dos subterrâneos e esgotos. Por baixo de Lisboa há quilómetros de subterrâneos, ainda do tempo dos mouros, como deve saber. Quilómetros deles! Os principais têm tamanho mais que suficiente para qualquer pessoa.
E ainda há caves, criptas, as fossas do metropolitano. Já está a ver, hem? E juntamos um grupo de homens valentes. Fora com os palermas!

ARTUR MOURATO: E queria que eu fosse?

A. BAETAS: Dei-lhe uma oportunidade para isso, não dei?

ARTUR MOURATO:
Está bem, está bem, Continue.

A. BAETAS: Teríamos de descobrir sítios seguros para morarmos e arranjarmos todos os livros a que pudéssemos deitar mão. Livros científicos, é bem de ver. É aí que são precisos homens como o senhor. Rebuscaremos os museus, poderemos, até, espiar os marcianos. Pode não ser preciso muito para que... Ora calcule isto... Quatro ou cinco daquelas máquinas de combate, desatam de repente a andar - com raios de calor para a direita e para a esquerda e sem um único marciano lá dentro!
Nem um só! Homens! Homens que aprenderam a manejá-las.
Pode acontecer ainda no nosso tempo. Caramba! Imagine ter uma daquelas coisinhas na mão, com raio de calor e tudo!
Atacaríamos os marcianos, atacaríamos os homens, dominaríamos o mundo!!!

ARTUR MOURATO: É, então, esse o seu plano?

A. BAETAS: Eu, o senhor e meia dúzia de outros teríamos o mundo a nossos pés!

PASSOS DE HOMEM AFASTANDO-SE SOBRE O EMPEDRADO

ARTUR MOURATO:
Compreendo...

A. BAETAS: Espere! Que foi? Onde vai o senhor?

ARTUR MOURATO: (Afastado): Para um mundo diferente do seu! Adeus!

PAUSA

Depois de deixar o homem encaminhei-me para Lisboa ansioso por saber o que acontecera à nossa cidade. Cheguei à Avenida 24 de Julho e lá estava o pó negro e vários corpos e um cheiro mau e agoirento que saía das caves de algumas casas. Vagueei pelas ruas. Parei, sozinho, no Terreiro do Paço vi um cão magricela a descer a Rua Augusta, a correr com um bocado de carne escura nos dentes e uma matilha de rafeiros famintos no encalço dele. Passou-me de largo como se receasse encontrar em mim um novo concorrente Subi a Rua do Ouro em direcção daquele estranho pó, passando montras silenciosas que mostravam as suas mercadorias mortas aos passeios vazios. Em cima do terraço do edifício dos Correios avistei um bando de aves negras que descrevia círculos no céu. Continuei para diante. De repente, vi a carapaça duma máquina marciana, de pé, perto do Parque Mayer. Subi, descuidadamente, a correr o resto da Avenida e entrei no Parque Eduardo VII.

Subi a um pequeno montículo Daí vi dez daqueles enormes gigantes de aço, de pé, numa fila silenciosa, de carapaças vazias, com os braços metálicos pendurados ociosamente. Tentei, em vão, descobrir os monstros que habitavam as máquinas. De repente, os meus olhos foram atraídos pelo grande bando de aves negras que pairava mesmo por cima de mim. Descreviam círculos até ao chão e, ali, diante de mim, mudos e inteiriçados, jaziam os marcianos com as aves famintas a picá-los e a rasgar-lhes tiras de carne escura dos corpos mortos. (Pausa) Mais tarde, quando os cadáveres foram examinados em laboratórios, descobriu-se que tinham morrido vencidos pelas bactérias da doença
e da podridão, contra as quais os seus sistemas não estavam preparados, abatidos, depois de terem falhado todas as defesas humanas, pela coisa mais humilde desta terra. (Pausa)

Antes da chegada dos cilindros, havia uma convicção geral de que em toda a vastidão do espaço não existia vida senão na superfície mesquinha da nossa diminuta esfera. Agora sabemos mais. É vaga e maravilhosa a visão que me atravessa o espírito: a visão da vida a espalhar-se, lentamente, deste pequeno viveiro do sistema solar, por toda a vastidão inanimada do espaço sideral. Mas isso é um sonho remoto. Pode ser que a destruição dos marcianos seja temporária. A eles, talvez, e não a nós, está destinado o futuro!

"BRANCA" DE 3 SEGUNDOS- TODO O RELATO EM SALA COM ECO

ARTUR MOURATO:
Parece-me estranho, agora, estar sentado na minha calma sala de trabalho de Cascais, dizendo o último capítulo da crónica começada numa casa abandonada de Oeiras. É estranho ver as crianças a brincarem nas ruas e gente nova a passear nos jardins, onde uma relva nova fecha as últimas cicatrizes negras duma terra magoada. É estranho observar os curiosos a entrarem num museu onde as peças duma máquina marciana estão em exposição. E estranho recordar a primeira vez que a vi, brilhante e recortada, dura e silenciosa, à luz da aurora. E estranho pensar que tudo isto pode acontecer... pode acontecer novamente!

Disco - (golpe musical forte)

MATOS MAIA: Ouviram:

(Em eco) A INVASÃO DOS MARCIANOS
Disco (indicativo)


MATOS MAIA: Versão adaptada e actualizada por Matos Maia, segundo o célebre romance de Herbert Wells, A Guerra dos Mundos.

Disco (indicativo - PP)

MATOS MAIA: Nesta emissão escutaram as vozes de Álvaro de Lemos,António Revez.Armando Baetas,Artur Mourato,
Augusto Xavier, Carlos Pinto, Coelho da Silva, Daniel Gonçalves, Eduardo Carvalhais, Gomes de Almeida, Joaquim Pedro, José Pinto, Mariano Calado, Mário de Castro, Matos Maia e Oscar Ramos.

Disco (indicativo - PP)

MATOS MAIA:
Sonorização e montagem de José Manuel Pinto; efeitos especiais de João Rodrigues; gravação fonoplástica de António Ricardo e José Manuel Pinto; realização técnica de Moreno Pinto.

Disco (indicativo - PP)

MATOS MAIA:
Uma realização radiofónica de Matos Maia que Rádio Renascença transmitiu através de todos os seus emissores: estações de Lisboa e Porto em ondas médias e a estação de ondas curtas na banda dos 48 metros, em serviço ultramarino.

Disco (indicativo - PP)

MATOS MAIA: Um programa radiofónico de ficção científica:


(Em eco) A INVASÃO DOS MARCIANOS

Disco (indicativo-final)

 
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Fachada da Rádio Renascença há uns anos atrás

COMO NASCEU
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BIOGRAFIA DE MATOS MAIA

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